{"id":1102,"date":"2014-12-28T19:41:49","date_gmt":"2014-12-28T18:41:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilbabyaffair.org\/?page_id=1102"},"modified":"2014-12-29T11:48:36","modified_gmt":"2014-12-29T10:48:36","slug":"sou-um-filho-comprado","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.brazilbabyaffair.org\/pt-br\/publicacoes-recursos\/midia\/bba-na-midia\/sou-um-filho-comprado\/","title":{"rendered":"&#8216;Eu sou um filho comprado&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Adotado Patrick Noordoven estava procurando por seus pais biol\u00f3gicos no Brasil e fez uma descoberta desconcertante<\/strong><\/p>\n<h2>\u2018Eu sou um filho comprado\u2019<\/h2>\n<p><em>Esther Wemmers<\/em><br \/>\n<strong>H\u00e1 muito tempo que ele poderia ter terminado sua carreira de estudos, ter um emprego ou talvez ter uma pr\u00f3pria fam\u00edlia. Mas em vez disso o adotado ilegal Patrick Noordoven (34), fica agarrando-se no Brazil Baby Affair. Ainda consegue acreditar dificilmente os fatos chocantes que descobriu enquanto a sua origem.<\/strong><\/p>\n<p>A partir do ano 2001 o brasileiro holand\u00eas viajou por grande parte da Am\u00e9rica do Sul em procura de seus pais biol\u00f3gicos. Dando assim uma decep\u00e7\u00e3o a seus pais adotivos que teriam preferido v\u00ea-lo fazer carreira. Mas ele somente fica um pouco mais quieto quando a pedra embaixo de um major caso fraudulento de ado\u00e7\u00e3o dos anos oitenta sai \u00e0 luz. Esta hist\u00f3ria esteve em muitos jornais faz 30 anos. Resulta que casais holandeses sem filhos tentam evitar longas listas de espera para uma ado\u00e7\u00e3o, fingindo sua gravidez com uma almofada debaixo do vestido durante o v\u00f4o ao Brasil. Ali recebem um beb\u00ea atrav\u00e9s de pessoas intermedi\u00e1rias que ajudam aos casais registrar os beb\u00eas como seu beb\u00ea biol\u00f3gico por meio de documentos falsificados. Porque naquela \u00e9poca h\u00e1 muitas imagens na televis\u00e3o de beb\u00eas aos gritos em camas ferrugentas nos orfanatos, ningu\u00e9m v\u00ea mal neste tipo de pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Mas por debaixo dos panos se revela ser um grande neg\u00f3cio. Quadrilhas ganham uns 10.000 \u00e0 30.000 d\u00f3lares com um beb\u00ea, depende da cor da pele. Durante os anos oitenta o Brasil <em>exporta<\/em> segundo estimativas 400 crian\u00e7as por m\u00eas.<\/p>\n<p>Os beb\u00eas de ent\u00e3o agora s\u00e3o adultos. Como muitas pessoas adotadas de maneira legal eles querem saber sua origem. Mas isso n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil quando faltam documentos oficiais e os pais adotivos nem podem contar onde e quando \u201cseu\u201d filho nasceu. Num programa como \u201cSpoorloos\u201d (programa de televis\u00e3o onde s\u00e3o buscados familiares desaparecidos) estes brasileiros adotados nem podem solicitar ajuda \u2013 o caso \u00e9 complicado demais.<\/p>\n<p>Patrick come\u00e7ou sua pr\u00f3pria procura em 2001. Gra\u00e7as a suas investiga\u00e7\u00f5es incans\u00e1veis se revelaram muitos segredos. Ele fica abalado: \u201cSe mostra que intermedi\u00e1rios e funcion\u00e1rios neerlandeses da embaixada e do consulado sabiam na d\u00e9cada de 1980 de que maneira seus compatriotas foram auxiliados para conseguir um beb\u00ea brasileiro, mas ningu\u00e9m foi jamais penalizado. Tamb\u00e9m pela colabora\u00e7\u00e3o deles, fui privado de meu direito humano \u00e0 identidade. Na Holanda, privar algu\u00e9m de sua identidade implica uma pena de pris\u00e3o de at\u00e9 cinco anos.\u201d<\/p>\n<p>Patrick vai crescendo numa fam\u00edlia respeit\u00e1vel em Gouda (cidade na Holanda). Seus pais n\u00e3o podem ter filhos e adotam dois meninos. \u201cCheguei dia 8 de mar\u00e7o de 1980 na Holanda, e meu irm\u00e3o adotado \u2013 legitimamente \u2013 alguns anos depois. Falamos pouco sobra nossa origem. Alguns arm\u00e1rios estavam fechados e nunca pude dar uma olhada a meus documentos reclusos num cofre.\u201d<\/p>\n<p>Aos vinte anos a curiosidade sobre sua origem acende-se. \u201cEstava estudando em Maastricht (cidade na Holanda) e conheci uma menina. Ela escutava muitas vezes m\u00fasica latina o que adorei. Tudo ajustava-se: Queria ir procurar minhas ra\u00edzes.\u201d<\/p>\n<p>Mas quando traz isto \u00e0 tona para seus pais, ele obteve um duro despertar para a realidade. Deviam contar-lhe alguma coisa. \u201cDurante o jantar contam-lhe que sua ado\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha sido leg\u00edtima. Ainda que n\u00e3o tivesse entendido de que maneira exatamente. S\u00f3 em 2011 fui informado pela minha advogada brasileira que meus pais me tinham comprado a pre\u00e7o de um terreno com uma casa por cima mais uma doa\u00e7\u00e3o para um orfanato\u201d.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 um assunto dif\u00edcil. Parcialmente por causa do \u201cav\u00f4\u201d. Porque ele tem desempenhado um papel na obten\u00e7\u00e3o de seu &#8220;neto&#8221; para a Holanda ilegalmente como funcion\u00e1rio da autoridade de migra\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio dos Assuntos Sociais. \u201cEle por seu lado teve um amigo que trabalhava no consulado de S\u00e3o Paulo. Este Hans, entretanto j\u00e1 falecido, e sua esposa abordaram seus contatos e arranjaram para que eu pudesse chegar na Holanda com documentos falsos.\u201d<\/p>\n<p>Por causa da obriga\u00e7\u00e3o de calar-se sobre esse assunto se sente totalmente sozinho. Mas sua decis\u00e3o est\u00e1 firme: Vai encontrar seus pais biol\u00f3gicos. \u00c9 o come\u00e7o de uma busca de dez anos durante a qual a vida dele na Holanda fica praticamente paralisada. Gasta antes de tudo o aux\u00edlio estudantil para os v\u00f4os \u00e0 Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Surgem grandes disputas com seus pais adotivos. \u201cN\u00e3o querem que seu filho adotado remexa em segredos familiares. Por insistir bastante pelo menos me deram o endere\u00e7o do funcion\u00e1rio Hans. Mas a visita na casa dele revelou-se ser uma grande decep\u00e7\u00e3o. Acabei de chegar nesta casa grande com piscina em S\u00e3o Paulo, quando ele me gritava que n\u00e3o tinha o direito de saber quem era minha m\u00e3e verdadeira. Sua esposa que tinha assinado meu certid\u00e3o de nascimento falso, ficou em p\u00e9 ao lado sem dizer nada.\u201d<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 sua capacidade de supera\u00e7\u00e3o incr\u00edvel, Patrick descobre passo a passo a verdade. Revela-se que nasceu num grande hospital moderno em S\u00e3o Paulo (\u201cenquanto sempre me contaram que tinha nascido numa pequena cl\u00ednica\u201d). Uma estagi\u00e1ria muito jovem de um orfanato administrado por holandeses, vem buscar Patrick pouco depois de que o cord\u00e3o umbilical foi cortado. A mo\u00e7a d\u00e1 o beb\u00ea enrolado em mantas ao gerente do orfanato que fica esperando na rua. Ent\u00e3o vai junto com Patrick a uma ruela onde o empregado do consulado Hans j\u00e1 est\u00e1 esperando num carro com motor ligado. A porta detr\u00e1s do carro abre e o casal de Gouda pega seu novo beb\u00ea no colo.<\/p>\n<p>O casal apresenta-se alguns dias depois num cart\u00f3rio onde registram Patrick como seu filho biol\u00f3gico, nascido inesperadamente durante as f\u00e9rias. Ningu\u00e9m faz perguntas. A esposa de Hans apresenta-se como testemunha. Sem problemas recebem um passaporte para o menino e saem do pais. Quando finalmente soube em que hospital ele nasceu, Patrick p\u00f5e numa planilha todos os nomes de dezenas de mulheres brasileiras que deram luz a um menino em torno de fevereiro 1980. Um por um risca os nomes, recorre cat\u00e1logos telef\u00f4nicos, vasculha os arquivos de hospitais, enfim publica at\u00e9 apelos na m\u00eddia brasileira para encontrar exatamente esta Maria Bernardes.<\/p>\n<p>Como por milagre, depois de dez anos de procura encontra uma mulher que depois de uma an\u00e1lise de DNA se revela ser sua irm\u00e3. Em seguida vem diretamente o golpe. \u201cMinha m\u00e3e n\u00e3o era totalmente pobre.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 me contou que minha m\u00e3e voltava muitas vezes para o hospital para saber o que tinha acontecido comigo. Ela se arrependia de ter me dado. Mas n\u00e3o responderam suas perguntas e toda vez chegava em casa chorando. Ela j\u00e1 n\u00e3o podia me contar ela mesma porque havia falecido.\u201d<\/p>\n<p>Agora tem mais uma fam\u00edlia e depois de tantos anos finalmente comemora seu anivers\u00e1rio no dia correto. Mas os custos s\u00e3o elevados, faz um ano e meio que j\u00e1 n\u00e3o fala com os seus pais adotivos. Na verdade ainda n\u00e3o pode descansar. \u201cComo que \u00e9 poss\u00edvel que todas essas pessoas que colaboraram nessas pr\u00e1ticas de ado\u00e7\u00e3o ilegal ficaram impunes? Quer desencravar isto mediante de um procedimento jur\u00eddico contra o Estado. Quero que ven\u00e7a a justi\u00e7a. N\u00e3o desejo a ningu\u00e9m que lhe passe o que a mim aconteceu. Que n\u00e3o me deram informa\u00e7\u00f5es e que ningu\u00e9m tomou minha identidade a s\u00e9rio. Custou-me dez anos de minha vida e 120.000 euros.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O pai adotivo de Patrick<\/strong><br \/>\n\u201cAdotamos Patrick com as melhores inten\u00e7\u00f5es e o criamos com amor. Pouco depois do casamento diagnosticaram c\u00e2ncer na minha esposa. Depois de graves tratamentos de c\u00e2ncer tornou-se imposs\u00edvel ter filhos. Na d\u00e9cada de 1980 existiam longas listas de espera para ado\u00e7\u00e3o. Contatos no Brasil nos ajudaram desinteressadamente para receber Patrick. Em nosso caso n\u00e3o se pode falar de manheira nenhuma de \u201ccomprar\u201d e de \u201cquadrilhas\u201d nem faz\u00edamos ideia. Por uma doa\u00e7\u00e3o apropriada para um orfanato receb\u00edamos um recibo de entrega oficial. A partir do primeiro dia tent\u00e1vamos juntar informa\u00e7\u00f5es sobre suas ra\u00edzes para poder responder perguntas que ele poderia tiver algum dia. Gra\u00e7as \u00e0s informa\u00e7\u00f5es abrangentes que pod\u00edamos juntar para ele, Patrick teve uns pontos de refer\u00eancia para encontrar suas ra\u00edzes finalmente. Nos distanciamos explicitamente de algumas declara\u00e7\u00f5es feitas por Patrick.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ado\u00e7\u00e3o ilegal<\/strong><br \/>\nEm 1981 s\u00e3o abertas dilig\u00eancias contra um casal da cidade de Wormer, que queria registrar no munic\u00edpio um beb\u00ea nascido no Brasil. O funcion\u00e1rio n\u00e3o confia no certid\u00e3o de nascimento e chama a policia. Depois de revistar muitos arquivos de v\u00e1rios munic\u00edpios, dezenas de casais ficam suspeitos de privar a identidade de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos. S\u00e3o tantos que a justi\u00e7a se agatanha. O que se faz com possivelmente cem beb\u00eas que foram importados de maneira ilegal e dos quais os pais s\u00e3o presos? Pais admitem a ado\u00e7\u00e3o ilegal em troca da suspens\u00e3o do julgamento. Mas os intermedi\u00e1rios tampouco s\u00e3o perseguidos. Uma advogada holandesa admite que emitiu dezenas de documentos falsificados para possibilitar a entrada dos beb\u00eas na Europa. Os pais receberam o aviso para visitar seu escrit\u00f3rio da embaixada ou do consulado, ela admite. Estranho que nenhum diplomata tenha sido detido por causa de dissimular a origem. Existem rumores obstinados que isto tem a ver com o fato de que o primeiro ministro na \u00e9poca do in\u00edcio das dilig\u00eancias, Dries van Agt, teve tamb\u00e9m um beb\u00ea adotado ilegalmente na fam\u00edlia. Van Agt nega isso resolutamente: \u201dDevo admitir que n\u00e3o me lembro daquele assunto\u201d notifica ele. O comiss\u00e1rio de pol\u00edcia na prov\u00edncia de Noord-Holland, Jan Oost, o chefe das investiga\u00e7\u00f5es de ent\u00e3o, n\u00e3o quer entrar nas perguntas, por que somente um intermedi\u00e1rio foi perseguido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 pouco tempo, Patrick Noordoven fundou uma organiza\u00e7\u00e3o para ajudar outras v\u00edtimas do Brazil Baby Affair encontrar os pais biol\u00f3gicos. Para mais informa\u00e7\u00f5es veja www.brazilbabyaffair.org<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adotado Patrick Noordoven estava procurando por seus pais biol\u00f3gicos no Brasil e fez uma descoberta desconcertante \u2018Eu sou um filho comprado\u2019 Esther Wemmers H\u00e1 muito tempo que ele poderia ter terminado sua carreira de estudos, ter um emprego ou talvez ter uma pr\u00f3pria fam\u00edlia. 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