{"id":1544,"date":"2015-05-25T17:08:41","date_gmt":"2015-05-25T15:08:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brazilbabyaffair.org\/?page_id=1544"},"modified":"2015-08-16T14:44:41","modified_gmt":"2015-08-16T12:44:41","slug":"meus-pais-me-levaram-um-direito-humano","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.brazilbabyaffair.org\/pt-br\/publicacoes-recursos\/midia\/bba-na-midia\/meus-pais-me-levaram-um-direito-humano\/","title":{"rendered":"\u2018Meus pais me levaram um direito humano\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>ST\u00c4FA \u2013 Como jovem adulto Patrick Noordoven de St\u00e4fa soube que festejava seu anivers\u00e1rio durante anos num dia no qual n\u00e3o tinha nascido. A raz\u00e3o para isso \u00e9 um crime.<\/strong><\/p>\n<p>Pouco depois do casamento, a mulher foi diagnosticada com c\u00e2ncer. Superou a doen\u00e7a mas depois n\u00e3o conseguiu mais ter filhos. O desejo de ter filhos do casal holand\u00eas era grande. Em 1980 a senhora e o senhor Noordoven se tornaram pais de um beb\u00ea brasileiro dentro de duas semanas.<br \/>\n    No restaurante Frohberg em St\u00e4fa est\u00e1 sentado um senhor esbelto com a tez bronzeada e cabelo curto e negro. O filho adotivo Patrick Noordoven hoje tem 35 anos. Junto com sua esposa, mudou-se para St\u00e4fa e completou recentemente seus estudos na Universidade de Zurique. Nos Pa\u00edses Baixos nunca se sentiu em casa e nunca mais vai ser assim. Associa lembran\u00e7as negativas demais com sua terra. O jovem conta sua hist\u00f3ria em alem\u00e3o com acento holand\u00eas. De vez em quando desprende desesperadamente &#8220;isto \u00e9 incr\u00edvel!&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Pais calados<\/strong><br \/>\nNa cidade de Gouda, nos Pa\u00edses Baixos, as pessoas frequentemente perguntavam ao menino de apar\u00eancia meridional: &#8220;de onde voc\u00ea vem?&#8221; Ele mesmo se manteve ocupado com essa pergunta ainda mais. &#8220;N\u00e3o tive uma inf\u00e2ncia f\u00e1cil&#8221; diz Patrick. Quando o jovem quis saber mais sobre sua origem, encontrou resist\u00eancia. E jamais teve o direito de dar uma olhada em seus documentos que ficaram fechados numa gaveta.<br \/>\nCom vinte anos o filho adotivo decidiu procurar suas ra\u00edzes no Brasil. Os pais n\u00e3o gostavam dessa id\u00e9ia. Contudo, queriam tirar o peso de alguma coisa antes de sua partida. &#8220;Minha vida girou 180 graus&#8221; conta Patrick. Contaram-lhe que n\u00e3o tinha nascido no 18 de fevereiro de 1980, seu anivers\u00e1rio pretenso e que sua ado\u00e7\u00e3o n\u00e3o sucedeu conforme as regras.<\/p>\n<p><strong>Entrega de beb\u00ea clandestina<\/strong><br \/>\nNo 18 de fevereiro de 1980, 12 dias depois do seu nascimento, o senhor e a senhora Noordoven estavam esperando no banco detr\u00e1s de um carro com motor ligado perto de um orfanato num sub\u00farbio de S\u00e3o Paulo. Ao volante est\u00e1 sentado um funcion\u00e1rio consular de S\u00e3o Paulo. A gerente do orfanato brasileiro-holand\u00eas acerca-se do carro com um beb\u00ea enrolado numa cobertinha. O casal abra\u00e7a o beb\u00ea e tr\u00eas dias depois a senhora Noordoven que, inesperadamente, deu \u00e0 luz a um filho, e seu marido, inscreveram num cart\u00f3rio, o certid\u00e3o de nascimento como pais biol\u00f3gicos do beb\u00ea. Adotaram o Patrick ilegalmente.<br \/>\nA fam\u00edlia Noordoven contornou as regras estritas de ado\u00e7\u00e3o que estavam estabelecidas at\u00e9 os meados dos anos oitenta, e que impossibilitaram aos demais casais estrangeiros adotar um beb\u00ea brasileiro. Gra\u00e7as \u00e0s suas rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, a fam\u00edlia Noordoven conseguiu cumprir o desejo de um filho de maneira r\u00e1pida e direta.<\/p>\n<p><strong>Busca dif\u00edcil<\/strong><br \/>\nNaquele momento, retiraram de seu filho o direito \u00e0 identidade. Quando um casal se registra como pais biol\u00f3gicos de um filho adotado, retiram-lhe a sua identidade original. Durante uma ado\u00e7\u00e3o legal, em contrapartida, \u00e9 depositado um dossi\u00ea do beb\u00ea correspondente nas autoridades de ado\u00e7\u00e3o.<br \/>\n        A ado\u00e7\u00e3o ilegal \u00e9 castigada com uma pena de 5 anos de pris\u00e3o. Depois de 20 anos, a pena \u00e9 prescreve. &#8220;Apesar disso, tudo \u00e9 varrido para debaixo do tapete&#8221; exclama Noordoven reprovadoramente.<br \/>\n    Quando come\u00e7ou a procurar sua m\u00e3e no Brasil, em 2001, um caminho dif\u00edcil o aguardava. Seus pais ficaram calados e somente fizeram um contato. As pessoas envolvidas na ado\u00e7\u00e3o ilegal tamb\u00e9m se calaram. Informantes desnortearam-no de prop\u00f3sito. No arquivo do hospital em S\u00e3o Paulo onde tinha nascido, Patrick encontrou mais que 100 m\u00e3es poss\u00edveis. Cada ano retornou ao Brasil e continuou a sua busca. Em 2011, descobriu sua meia-irm\u00e3 mais velha. Come\u00e7ou a matar a charada de sua origem.<br \/>\n    Noordoven tem duas irm\u00e3s mais velhas. A m\u00e3e trabalhava como empregada dom\u00e9stica e n\u00e3o era capaz de prover para todos os tr\u00eas filhos. Vivia junto com a filha mais jovem, a mais velha ficou com a tia. Dela Patrick soube que a m\u00e3e tinha voltado varias vezes ao hospital para perguntar por ele, e que muitas vezes chorava.<\/p>\n<p><strong>V\u00edtima do tr\u00e1fico de crian\u00e7as<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 1985 governou no Brasil a ditatura militar. Mulheres que n\u00e3o fossem apoiadas pelo pai do filho deveriam doar seu filho depois do nascimento. Noordoven cr\u00ea ser uma v\u00edtima do tr\u00e1fico de crian\u00e7as. Seus pais adotivos doaram ao orfanato uma soma generosa. Enviaram at\u00e9 mesmo dinheiro para a hospitaliza\u00e7\u00e3o e o cuidado m\u00e9dico da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Para a doa\u00e7\u00e3o, os pais receberam um recibo, por\u00e9m a gerente do orfanato no Brasil confirmou ao Patrick que esse montante nunca tinha chegado ao orfanato. Segundo suas pesquisas a seguran\u00e7a de sa\u00fade brasileira assumiu os custos m\u00e9dicos da m\u00e3e. Fazer perguntas \u00e0 m\u00e3e, Patrick j\u00e1 n\u00e3o pode porque ela faleceu em 1985. Com os pais adotivos, n\u00e3o est\u00e1 mais em contato. Depois de o responsabilizarem numa carta por sua situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, eles cortaram a rela\u00e7\u00e3o. &#8220;Me levaram um direito humano&#8221;.<br \/>\n    Patrick n\u00e3o pode aceitar que a muitos adotados ilegais lhes foi causado tanta iniquidade porque pais como seus responderam apenas com silencio de gelo. Com sua ONG Brazil Baby Affair (veja a caixa de texto) Patrick apoia adotados ilegais. Ele ainda busca seu pai.<br \/>\n<em>Bettina Zanni<\/em><\/p>\n<h4>Caixa de texto: Apoio para adotados ilegais<\/h4>\n<p><strong>No final dos anos 70<\/strong> e no in\u00edcio dos anos 80, numerosos casais da Europa e dos EUA adotaram beb\u00eas brasileiros ilegalmente. Pelo nome de Brazil Baby Affair a pol\u00edcia holandesa descobriu, em colabora\u00e7\u00e3o com a pol\u00edcia alem\u00e3, as ado\u00e7\u00f5es ilegais. A ONG Brazil Baby Affair, fundada em 2014 por Patrick Noordoven, com sede em Zurique apoia brasileiros ilegalmente adotados em todo o mundo e oferece ajuda \u00e0s fam\u00edlias originais. A associa\u00e7\u00e3o tem o foco em pessoas que foram adotadas antes de 1999 no Brasil, e foram registrados como filhos biol\u00f3gicos dos pais adotivos nos pa\u00edses de origem deles.<br \/>\nPatrick Noordoven trabalha \u00e0 base volunt\u00e1ria. Para que os clientes n\u00e3o precisem pagar mais eles mesmos os servi\u00e7os, atualmente est\u00e1 procurando fundos e doadores.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ST\u00c4FA \u2013 Como jovem adulto Patrick Noordoven de St\u00e4fa soube que festejava seu anivers\u00e1rio durante anos num dia no qual n\u00e3o tinha nascido. A raz\u00e3o para isso \u00e9 um crime. Pouco depois do casamento, a mulher foi diagnosticada com c\u00e2ncer. Superou a doen\u00e7a mas depois n\u00e3o conseguiu mais ter filhos. 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